Mobius BR: a história de um clã amador de Counter-Strike 1.6 que não pode ser (e não será) esquecido.
Em memória de:
Rafael A.
Eduardo D.
Sarah M.
Eu jamais estaria aqui se não fosse por vocês, muito obrigado por tudo.
Me chamo Henrique Seijy (Prazen, Hen). Comecei a jogar Counter-Strike 1.6 em 2006, inicialmente apenas por diversão. Mas sempre gostei de aprender, melhorar minhas habilidades e entender o jogo, e o CS sempre me cativou muito por isso. Naquela época, meu foco não era competir, mas jogar em servidores 4fun e participar de fóruns e comunidades que hoje já não existem mais. Meu nickname era Shadow, e o jogo era, acima de tudo, um espaço de diversão. (Anos depois participei da administração de servidores do forum Novotopico, sob o nome de Duracell, mas essa é outra história)
Em uma dessas jogatinas que avançavam madrugada adentro, por volta de 2008, conheci três jogadores em um servidor já quase vazio: Rafael, Eduardo e Sarah, conhecidos pelos nicknames Thunder, Du e SaraH. No fim da noite, éramos os únicos que ainda permaneciam no servidor. Conversamos, jogamos mais algumas partidas e, antes de nos despedirmos, trocamos contato pelo Skype. A partir dali, começamos a jogar juntos com frequência. Eles ainda eram iniciantes, queriam aprender mais, e eu acabava ensinando algumas coisas durante as partidas. Com o tempo, nos aproximamos muito e nos tornamos grandes amigos.
Depois de alguns meses jogando juntos, decidimos criar um clã. Assim nasceu o Mobius BR, também chamado de Mobius Group BR. A inspiração veio do Mobius Squadron, da série Ace Combat, conhecidos pela finesse e extrema eficiência em combate, características que de alguma forma também buscávamos dentro do jogo. Passamos a jogar ativamente em servidores como QI300, Novotópico e CSWBR, sempre com muita união e bom humor. Em partidas mais sérias, abandonamos os nicknames tradicionais e passamos a usar apenas números: eu como Mobius 1, a Sarah como Mobius 2, o Rafael como Mobius 3 e o Eduardo como Mobius 4. Caso fosse necessário um quinto jogador, ele seria o Mobius 5, mas nunca houve um quinto integrante oficial, era sempre algum amigo para completar. Nesse período, abandonei o nick Shadow e passei a usar apenas One, ou simplesmente 1.
A Mobius era um time extremamente conectado. Confiávamos profundamente uns nos outros, sempre havia cover, sempre havia proteção, sempre havia alguém disposto a ajudar. Cada um tinha um estilo muito bem definido. Eu era mais forte na defesa, especialmente jogando de CT, com destaque para a M4A1, hoje conhecida como M4A1-S, e também com a FAMAS. A Sarah era uma sniper muito agressiva, focada em quickscopes e ganho de espaço, jogando muito bem tanto na defesa contra rushes quanto no ataque de TR, tendo a AWP como sua arma principal. O Rafael era um sniper mais clássico, sorrateiro e extremamente preciso, marcando pontos críticos e jogando muito bem dentro do bomb, usando principalmente a AWP, mas sendo mortal com a Desert Eagle quando precisava confiar na pistola. O Eduardo era um rifler agressivo, com uma leitura de jogo impressionante, sua arma favorita era a AK-47, mas suas jogadas mais marcantes vinham nos rounds pistol, onde era mortalmente preciso com a USP.
Éramos um time equilibrado. Normalmente nos dividíamos entre os bombs com um sniper agressivo e um rifler defensivo, alternando conforme a estratégia, mas em algumas jogadas deixávamos propositalmente os dois jogadores mais defensivos em um ponto enquanto os dois mais agressivos ganhavam espaço no mapa. Explorar essas características era extremamente divertido, parecia que um completava o outro de uma forma quase natural. Nossos mapas mais fortes eram de_Dust II, de_Dust, Aztec, CS_Assault e de_Inferno.
Em 2012, participamos de um pequeno campeonato amistoso organizado por fóruns através do Skype. O prêmio era simples, R$ 300 e um mês de servidor fechado para jogar com amigos. Outros clãs amadores participaram, como Nk Team, SdwBR, HSClan, MitzClub e NTC. Vencemos o campeonato. Pode parecer algo pequeno, mas para nós foi uma grande conquista e uma confirmação de que o tempo jogando juntos tinha criado algo especial.
Em 2013, algo mudou. Éramos muito próximos e compartilhávamos bastante do nosso dia a dia. A Sarah enfrentava problemas familiares graves, que não cabe detalhar aqui por respeito à sua memória, e o jogo muitas vezes era uma válvula de escape. Nós sempre ouvíamos, tentávamos ajudar e manter o ânimo durante as partidas. Éramos muito jovens, entre 14 e 15 anos, e não sabíamos como lidar com situações tão difíceis, mas fazíamos o possível para que aquele tempo juntos fosse um pouco mais leve.
Em abril de 2013, recebemos a notícia de que a Sarah havia falecido. Seus familiares entraram em contato conosco. O impacto foi devastador. Para mim, foi especialmente difícil, porque ela era minha dupla em quase todas as partidas, jogávamos juntos o tempo todo. A Mobius nunca mais foi a mesma. Tentamos continuar jogando, tentamos manter o foco, mas a dor era grande demais. Em agosto de 2013, decidimos que a Mobius não estava completa sem a Sarah e que não fazia sentido continuar sem ela. Ali, o clã chegou ao fim.
Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Eu tentei continuar jogando Counter-Strike, mas era algo muito esporádico, pois jogar trazia muitas memórias e muita dor. Rafael e Eduardo nunca mais voltaram aos jogos competitivos, e com o tempo perdemos contato. Durante a pandemia do coronavírus, no final de 2020, soube através de um amigo em comum que tanto Rafael quanto Eduardo haviam falecido por complicações da COVID-19.
Hoje, sou o último membro vivo da Mobius. Ainda jogo CS2, mas não de forma competitiva, e talvez nunca mais jogue, porque já não faz sentido para mim. Não uso mais o nick Mobius 1. Hoje jogo apenas com o símbolo do infinito, como uma lembrança. Minhas armas carregam memórias: a USP tem o nome do Eduardo, com seus anos de nascimento e falecimento; a Desert Eagle carrega o nome do Rafael; e a AWP carrega o nome da Sarah, em homenagem às armas que eles dominaram e às pessoas que foram. Minha M4A1-S carrega apenas um nome, Apocalipse 22:13, sobre eu ter sido o início e também o fim, já que fui eu quem fundou o clã e hoje sou o último que permanece.
Esta é a história da Mobius BR. Um time que nunca foi famoso, nunca apareceu em grandes sites ou campeonatos, mas que existiu, foi real e foi feliz. Enquanto essa história for contada, ela não será esquecida.
Fim.
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